Os noivos de Singapura

POR HENRIQUE PRIOR

O mundo está cheio de farsantes. Mas é difícil encontrar dois farsantes tão perfeitos como  Donald Trump e Kim Jong-Un. Aqueles que, há três meses apenas, se apelidavam de “homem foguete” “velho tonto”, tratam-se agora como honoráveis amigos, e convidam-se um ao outro para visitarem os respetivos países.
O que se terá passado para que os arqui-inimigos se transformassem em apaixonados noivos, e para que Trump encontrasse no criminoso que governa a Coreia da Norte um amor à primeira vista ( nos primeiros segundos do primeiro encontro, disse ele)? Muito à custa do sofrimento do seu povo, a verdade é que Kim Jong-Un fez-se respeitar pela única maneira que Trump reconhece para respeitar os outros: o medo.

Foi construindo com enorme rapidez um arsenal nuclear, capaz de ameaçar não só os aliados dos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão, mas os próprios Estados Unidos no seu território. Embora Trump ameaçasse com a destruição total da Coreia do Norte, ele e os seus conselheiros nunca ignoraram que tal não passava duma figura de retórica porque, então, o que estaria em causa não seria apenas a Coreia do Norte e o seu criminoso chefe, mas a China. E é da China que Trump, realmente, tem medo.

À China, por outro lado, interessa que não haja qualquer conflito junto do seu território, muito menos com armas nucleares, certa que está de em breve, muito em breve, vir a ser, e pacificamente, por força do seu peso económico e militar, e da dimensão da sua população, a primeira potência mundial.

Como é sabido, após uma escalada de ameaças e insultos recíprocos com Trump, Kim Jong-Un deslocou-se à China, onde, obviamente, recebeu instruções para alcançar um acordo com Trump.

Esse acordo também interessa a Kim que quer exibir-se perante o seu povo como um herói triunfador, que conseguiu ser tratado de igual para igual perante uma América arrogante, que humilha até aliados poderosos como a Alemanha, a França e o Canadá. Foi assim que Kim conseguiu vangloriar-se perante os norte coreanos:

“…nós enfrentámos os americanos, nós sofremos, mas todos estes sacrifícios não form em vão. Fomos admitidos entre os grandes. O próprio presidente americano se desloca para me ver.”

Convenhamos que, para um pequeno país em dimensão geográfica e populacional, é uma vitória brilhante.

Por seu lado, Trump, sucessivamente humilhado por compatriotas e estrangeiros que o tratam como louco, conseguiu o que nenhum outro presidente americano tinha conseguido: encontrar-se com o presidente da Coreia do Norte e iniciar com ele um período de paz.

A ler-se o que publicamente foi assinado, há no acordo efetuado entre ambos meras delcarações de intenção para a desnuclearização da península da Coreia, e não só da Coreia do Norte, como sempre pretenderam os EUA. Mas a propagande de Trump faz disso uma grande vitória, nunca alcançada por tantos presidentes  anteriores a ele, desde 1953.

E, perante um povo apreciador da bravata e onde grassa a incultura, isso funciona em termos eleitorais, o que é essencial para Trump, não só numa reeleição futura mas, sobretudo, neste momento em que se aproximam eleições para a totalidade da Câmara dos Representantes e um terço do Senado, que ainda este ano se vão realizar. Por outro lado, certamente que Xi Jinping não terá deixado de assegurar a Kim e a Trump que a Coreia do Norte passaria a estar sob o guarda chuva nuclear da China. E certamente convenceu Kim Jong-Un a que o fim das sanções económicas e a adoção dum comunismo de mercado, como o da China, teria a prosperidade do povo norte coreano e a glória do seu líder.

Tão perto de nós, esse encontro já é uma lição da História: em como a subtil sabedoria chinesa demonstrou o seu poder em toda a linha.